Preenchedores dérmicos estão entre os procedimentos mais realizados nas clínicas de estética. Na grande maioria das vezes, tudo corre bem. Mas quando uma complicação grave acontece, duas perguntas precisam de resposta imediata: o que fazer agora e qual produto, de qual lote, foi usado.
Este artigo não é um protocolo clínico. Ele trata da parte que a gestão da clínica consegue organizar antes que qualquer intercorrência aconteça.
O que os números mostram
Complicações graves são raras, e os estudos confirmam isso:
- um estudo retrospectivo publicado em 2025 analisou 290.307 aplicações de ácido hialurônico em 209.083 pacientes de uma rede de clínicas no Japão. Foram registradas 12 complicações graves (10 obstruções vasculares e 2 infecções), uma taxa de 0,0041%. Oito das obstruções vasculares ocorreram na testa;
- uma revisão da literatura mundial publicada em 2015 identificou 98 casos de alteração da visão após preenchimento. As regiões mais associadas foram a glabela (38,8%), o nariz (25,5%), o sulco nasolabial (13,3%) e a testa (12,2%). O ácido hialurônico respondeu por 23,5% dos casos. A maioria dos casos de perda de visão não se recuperou.
Ou seja: o risco é baixo, mas o dano possível é grave e, em alguns casos, permanente. É exatamente o tipo de risco que exige preparo, e não improviso.
O que a Anvisa orienta
Em março de 2026, a Anvisa publicou uma recomendação sobre o uso de preenchedores dérmicos. Os principais pontos:
- preenchedores como ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio, ácido poli-L-lático e PMMA são dispositivos médicos de classe III ou IV, ou seja, de alto e máximo risco;
- devem ser usados somente dentro das indicações aprovadas, respeitando as regiões e os volumes previstos nas instruções de uso;
- a profissional deve avaliar o paciente, traçar o plano de tratamento com ele e informar os riscos e as possíveis complicações;
- o paciente deve receber o cartão de rastreabilidade do produto, e uma cópia deve ficar no prontuário;
- suspeitas de eventos adversos podem ser notificadas à Anvisa pelo Notivisa. Denúncias de produtos irregulares vão para a Ouvidoria, pelo Fala.BR.
A Anvisa também já emitiu alertas sobre produtos injetáveis com suspeita de falsificação. Comprar de fornecedores regulares e conferir o registro do produto faz parte da segurança.
Rastreabilidade: por que o lote importa
Quando uma complicação acontece, ou quando a Anvisa ou o fabricante emitem um alerta sobre um lote específico, a clínica precisa responder rápido:
- quais pacientes receberam aquele lote?
- em que data e em qual região?
- quem aplicou?
- ainda há unidades desse lote no estoque?
Se o lote só está anotado em um papel solto ou no cartão entregue ao paciente, responder a essas perguntas pode levar dias. Com o registro ligado ao atendimento, leva minutos.
Uma rotina simples de rastreabilidade
- Na entrada: registre produto, lote, validade informada pelo fornecedor, nota fiscal e fornecedor.
- No atendimento: registre qual produto e qual lote foram usados, a quantidade e a região.
- No prontuário: guarde a cópia do cartão de rastreabilidade entregue ao paciente.
- Nas saídas que não são atendimento: registre perdas, descartes e ajustes, com o motivo.
- Na conferência: compare periodicamente o estoque físico com o registrado.
No controle de estoque do Atenza, cada movimentação tem produto, lote, quantidade e responsável, e o consumo pode ser ligado ao procedimento. Assim, o prontuário mostra o que foi usado em cada paciente, e o estoque mostra em qual atendimento cada unidade saiu.
Preparo para intercorrências: o papel da gestão
A conduta clínica diante de uma complicação é responsabilidade da profissional habilitada e deve seguir diretrizes reconhecidas. Uma diretriz publicada em 2021 sobre obstrução vascular por ácido hialurônico destaca que, por ser um evento raro, a maioria dos profissionais aprende sobre ele pela teoria, e não pela prática. Por isso, reconhecer os sinais cedo e agir no tempo certo depende de preparo prévio.
O que a gestão da clínica pode garantir:
- Protocolo escrito, definido pela responsável técnica com base em diretrizes atualizadas, acessível a toda a equipe.
- Materiais de intercorrência disponíveis e dentro da validade, com conferência periódica registrada.
- Treinamento da equipe, inclusive da recepção, para reconhecer quando um contato do paciente é urgente.
- Canal de contato pós-procedimento claro, para o paciente saber a quem recorrer.
- Rede de apoio definida, como serviços de urgência e especialistas para encaminhamento.
- Registro completo de tudo o que foi feito, com horários.
Depois da intercorrência
Uma intercorrência bem conduzida também inclui:
- acompanhamento do paciente até a resolução, com retornos marcados;
- registro detalhado no prontuário;
- avaliação da necessidade de notificar a Anvisa pelo Notivisa;
- conferência do lote usado e, se necessário, contato com o fornecedor;
- uma conversa da equipe sobre o que pode ser melhorado no processo.
O acompanhamento de retornos do Atenza ajuda a não perder nenhum retorno previsto depois do procedimento.
Checklist
- Todo preenchedor em estoque tem produto, lote e fornecedor registrados.
- Cada aplicação registra produto, lote, quantidade e região.
- O cartão de rastreabilidade é entregue ao paciente e copiado no prontuário.
- Existe protocolo escrito de intercorrências, revisado periodicamente.
- Os materiais de intercorrência são conferidos e estão dentro da validade.
- A equipe sabe como reconhecer um contato urgente.
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Fontes e leitura complementar
- Anvisa. Preenchedores dérmicos somente dentro das indicações aprovadas, 2026
- Tamura T et al. Serious Complications of Hyaluronic Acid Fillers: a retrospective study of 290,307 cases. Annals of Plastic Surgery, 2025
- Beleznay K et al. Avoiding and Treating Blindness From Fillers: a review of the world literature. Dermatologic Surgery, 2015
- Murray G et al. Guideline for the Management of Hyaluronic Acid Filler-induced Vascular Occlusion. Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, 2021
- Anvisa. Notivisa: notificação de eventos adversos